Saudades de coisas que não vivi

O ano era 1969 e o mundo presenciava vários fatos importantes,  como a guerra entre Estados Unidos e Vietnã, a primeira mulher que seqüestrou um avião, a criação da ArpaNet (a avó da internet), a estréia do Jornal Nacional, a filipina Gloria Maria Diaz é eleita Miss Universo, a Apollo 11 pousa na lua e o americano Neil Armstrong sai para o primeiro passeio humano em solo lunático, a posse do militar Emílio Garrastazu Médice na presidência do Brasil e o Festival de Música e Artes de Woodstock.

É com sentimento de “a festa acabou” do final da década de 60 que foi realizado em agosto numa fazenda em Bethel, um povoado localizado em New York, o maior festival que o mundo já viu. Dois jovens, John Roberts e Joel Rosemann, ricos e despretenciosos resolvem fazer algo útil com a grana que têm e colocam um anúncio no jornal: “homens com capital ilimitado procuram oportunidades de investimento em propostas de negócios interessantes e originais”, quando Artie Kornfeld e Michel Lang, outros dois jovens com propostas de negócios interessantes e originais, mas sem um tostão furado no bolso entram na jogada. Os dois pobretões tinham a idéia de montar uma gravadora independente, especializada em rock e localizada numa cidadezinha longe de Manhattan, chamada Woodstock ou então realizar um festival que reunisse tudo o que havia no estilo de vida da contracultura americana com exposições culturais e shows de rock. Bom, o quarteto acabou escolhendo o festival.

Aí surgiram as questões: aonde? “Ah, vamos fazer num campo afastado da cidade grande, bixo. Paz, amor e clima de volta ao campo”; quem e como? “A gente pode fazer a coisa voltada para os jovens, sacou? A nova geração ‘faça amor, não faça guerra’. Aí a gente faz uns cartazes com uns slogans maneiros, usando o conceito da Era de Aquárius, pode ser assim ó: Três dias de paz e música… E aí, curtiram?” E então o Woodstock começou a tomar forma.

É óbvio que os quatro garotões foram chamados de pretenciosos, loucos, malucos, drogados, que não têm mãe, vai estudá menino e por aí vai. Mas a sorte é que os nossos avós aguardavam muito por um evento daquele tipo na época. As pessoas passavam por tempos difíceis de guerra, violência e desilusão. E o Woodstock viria para dar esperança àqueles jovens. Como o próprio Kornfeld (um dos pobretões) disse, “o festival não deveria ser pensado como construção de palcos e assinaturas de contratos ou venda de ingressos, mas sim como um estado de espírito um acontecimento para se tornar ícone de uma geração”.

O Woodstock foi pensado como um evento para não mais do que 100 mil pessoas, mas bateu recordes incríveis, arrebanhando quase meio milhão de pessoas (sem contar as que ficaram presas no maior engarrafamento da história de New York). Foram três dias de mentes abertas, amor livre, drogas liberadas e muito rock ‘n’ roll, em que nenhuma ocorrência por violência foi registrada, duas pessoas morreram (por overdose) e duas nasceram (e tantas outras foram concebidas). Felizmente os planos dos quatro garotões malucos deram absolutamente certo: pessoas reunidas por um ideal e vontade de se divertir.

E a música de hoje é Let’s Go Get Stoned, de Joe Cocker, gravada no Woodstock de 69. Cocker é  britânico e começou a cantar com 15 anos.  A primeira banda que participou  foi os Avengers (sob o nome artístico de Vance Arnold), depois Big Blues e então a Grease Band. Em 1969, além de participar do Woodstock, ele foi o astro convidado do programa The Ed Sullivan Show. Seu primeiro grande sucesso foi “With a Little Help from My Friends”, uma versão da música dos Beatles gravada com o guitarrista Jimmy Page. Coker ainda tem mais alguns hits com “She Came Through the Bathroom Window” (outra versão de uma música dos Beatles), “Cry Me a River” e “Feelin Alright”. Em 1970 sua versão ao vivo do sucesso “The Letter” dos Box Tops, lançado na compilação Mad Dogs & Englishmen tornou-se sua primeira canção a entrar no Top Ten americano. O que mais me impressiona nesse cara, é a voracidade com que ele interpreta as músicas. Põe todo o sentimento e solta o vozerão, capaz de emocionar muito cabra-macho (quantos já não choraram escondidinhos num quarto escuro, ouvindo You Are So Beautiful?). Aprecie sem moderação:

Toda vez que vejo esse vídeo me bate uma nostalgia, uma tremenda saudade de coisas que não vivi. Mais alguém aí sente o mesmo?

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2 Respostas to “Saudades de coisas que não vivi”

  1. Não conhecia os teus dotes “escrevísticos”. Taí, gostei! Escreves muito bem. Curti o blog!

    Beijos

  2. Lolla Says:

    Saudade do que não vivi. Sinto a mesma coisa..
    E na falta de Woodstock, eu e mais 4 doidas pegamos o Herbie, nosso fusca de estimação (um nome bem original né) e vamos pra qualquer festival que tenha pelo menos um cover de algo bom.
    Dá pra brincar de hippie por um ou dois dias…Mas não mata essa saudade.

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